A diversidade humana

 Imagem: Fictionforlife.tumblr

Imagem: Fictionforlife.tumblr

Como arquiteta me baseio muito na legislação vigente e em estudos de relevância em nossa área. A norma da ABNT 9050/15 que trata da acessibilidade, por exemplo, é uma que mora na minha mesa. Sempre a consulto e uso como referência para projetar espaços que sejam adequados a todos. No entanto, quando comecei a estudar sobre quais seriam as medidas ideais para os móveis utilizados pelos idosos algo começou a mudar.

Nada mais rico que ver pessoalmente os problemas que cada pessoa enfrenta. Com este intuito comecei a ir às sessões de fisioterapia particulares que minha colega Flavia Dumangin realizava. Em uma destas visitas conheci a Sra. Paula*. Uma senhora de 91 anos muito simpática, que tem um dos cachorros mais fofos que já conheci!

Acontece que a Sra. Paula tem 1,33m de altura. Em consequência disto para que sua poltrona ficasse adequada à sua postura, os pés tiveram que ser serrados. Se você tivesse simplesmente utilizado a norma, teria adotado uma poltrona com um assento com uma altura entre 40 e 45cm. A da Sra. Paula ficou com 35cm. Errado? Não! Perfeito. Pra ela!

Em outra ocasião fui acompanhar uma adaptação que precisava ser feita em um assento de um carro. Quando sentamos no banco da frente nossa perna faz um ângulo menor que 90º em relação ao piso. Nunca reparou? Nem eu tinha reparado até este momento! O que acontece é que a Sra. Beatriz*, de 81 anos, estava se recuperando de uma cirurgia, e não poderia ter seus joelhos em uma altura maior que seu quadril! Um carro que tenha regulagem de altura do assento resolveria isto fácil. Não era o caso, mas uma almofada ajustou esta questão rapidamente.

No estágio que fiz no residencial do Albert Einstein, procurei a terapeuta ocupacional em busca de uma resposta definitiva. Com uma pergunta certeira disparei: qual a altura ideal da cama? Escutei o que não queria: Não tem. Frente ao meu desaponto a terapeuta me esclareceu que em algumas situações em que a pessoa não pode ou não deve sair da cama, o ideal é que a altura fique mais baixa, dificultando o trabalho do corpo de se erguer. De acordo com ela, na maioria dos casos, este desestímulo já é suficiente para manter o idoso na cama. Se a intenção é estimular e facilitar que a pessoa se levante sozinha da cama, o ideal é que sua altura forme o tal ângulo de 90º entre a coxa e a panturrilha. Lembram do caso da Sra. Paula*? Pra ela o ideal de altura de cama seria 35cm. Para a Sra. Beatriz*, seria 45cm.

Vivenciei isto claramente na casa do Sr. José* e da Sra. Fabiana*, um casal de alemães super altos, na casa dos 70 anos. Mesmo com as pernas longas, eles precisaram cortar os pés da cama, para facilitar o ato de levantar pela manhã.

Qual o problema da altura da cadeira, sofá ou da cama não serem adequados? Simplesmente um esforço maior para levantar? Muito mais do que isto. Com o processo de envelhecimento nosso organismo muda. Além de ocorrer a atrofia muscular, também acontece o que chamamos de hipotensão postural; que é a queda da pressão ao mudar de posição. Pode ser da posição horizontal, deitada; para a vertical, sentada (acontece muito quando levantamos da cama); ou mesmo da posição sentada para a posição em pé (quando levantamos da cama ou do sofá). Esta queda de pressão pode causar tontura e consequentemente uma queda. Isto pode acontecer com qualquer um. Quem nunca foi pegar algo no chão, se levantou rápido e ficou tonto? A questão é que se isto ocorre com alguém mais jovem, rapidamente ele recupera o equilíbrio, o idoso não.

O que eu estou tentando dizer é que não existe fórmula mágica. As normas são incríveis e nos auxiliam em muito no desenvolvimento de soluções. Porém elas atenderão a 80% de uma população. E os outros 20%? Cada ser humano tem uma altura, uma peculiaridade. E viva a diferença! O segredo é você saber qual é a sua! Assim, na hora de comprar uma cadeira, você pode escolher a que seja mais adequada para VOCÊ e para o uso que vai fazer dela!

Veja alguns exemplos de cadeira de jantar:

 REF: LOJA SACCARO

REF: LOJA SACCARO

Agradecimentos: Fisioterapeuta Flavia Dumangin, que está junto comigo nesta luta em oferecer a melhor qualidade de vida para os idosos! Aos pacientes da Dra. Flavia que me receberam com um enorme carinho! Ao Residencial Albert Einstein que me propiciou um estágio onde aprendi mais que em um ano de estudo!

*Os nomes foram alterados para preservar a privacidade dos pacientes.