A casa que envelhece com você

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As pesquisas apontam que a maioria dos idosos não se mudaria da própria casa se pudesse escolher. E não é para menos. A nossa casa carrega muitos símbolos, muita história. É nela que estão nossas memórias. Sabemos o porquê de cada peça que está lá. Onde cada item foi adquirido, ganho por quem, em que época ou situação da vida. É nela que vivemos momentos de alegria com a família e com os amigos. É ela que nos recebe nos momentos que precisamos de acolhimento. Nossa identidade, quem somos, está extremamente ligada ao espaço em que escolhemos viver.

Mas porque então quando ficamos mais velhos precisamos abandonar tudo isto e nos mudar? Às vezes as circunstâncias da vida nos obrigam. Algo acontece. Sempre algo acontece. Uma queda, um esquecimento, uma insegurança. Às vezes justificada, mas muitas vezes nem tanto. Saber pesar esta diferença é o grande desafio não só para os filhos mas para os próprios idosos.

Para os que querem permanecer em casa pelo máximo de tempo possível a primeira coisa a se fazer é pensar em prevenção. Entenda que o seu espaço precisa envelhecer junto com você. E quando digo isto penso da forma mais positiva possível. Ou seja, o seu espaço precisa se adaptar ao envelhecimento assim como você precisa se ajustar a esta nova etapa que chega sorrateiramente. E ninguém melhor do que você mesmo para identificar suas necessidades e fazer as alterações de uma forma que esta adaptação seja apenas uma continuação de sua história. Continue escolhendo cada peça, cada móvel, de forma que sua identidade se mantenha preservada.

Vocês já devem ter escutado muito para tirarem o tapete, a mesa de centro, os enfeites em cima da mesa. Mas e se o tapete foi comprado naquela viagem especial, ou os enfeites sejam presentes de pessoas queridas, que te trazem um sorriso todas as vezes que olham para eles? Ou simplesmente não querem tirar a mesa de centro porque a sala vai ficar horrível sem ela?

Foi pensando nisso que decidi estudar gerontologia. Como arquiteta não me conformava com as soluções existentes no mercado. Um arquiteto especialista consegue perceber os riscos só de olhar o ambiente e analisar a rotina do idoso. Adaptar o espaço não significa jogar fora, tirar da frente, trocar tudo. Significa ajustar, mudar de lugar, trocar funções e se inevitavelmente tiver que comprar algo novo, que seja algo que tenha a sua identidade e não a do hospital ou da loja de itens para idosos.

Se você não tem um profissional que possa te ajudar nessa transição, tenha uma conversa sincera com você mesmo. Lembre-se, quanto mais sincera esta conversa for, maior a sua chance de permanecer em sua própria casa por mais tempo. Escreva sua rotina diária. Analise quais atividades você já não faz ou faz de forma diferente em função de alguma limitação. Trabalhe as questões pontualmente, de acordo com o surgimento destas limitações. Não transforme sua casa de uma vez só. Ela precisa se mudar junto com você, se lembra? O sofá ficou desconfortável porque a espuma do assento está muito mole? Antes de sair trocando aquele sofá que você demorou anos para conseguir comprar e é o seu xodó, experimente trocar a densidade da espuma do assento. Está com dificuldade para levantar do vaso sanitário? Troque a altura do assento do vaso por um mais alto. Continua com dificuldade? Instale barras de apoio. A fôrma para fazer o bolo está em uma prateleira muito alta? Nem pense em subir no banquinho! Que tal fazer uma revolução na cozinha e trocar as coisas de lugar? Uma simples arrumação e reorganização faz milagres!

Cada um vai ter sua própria lista de limitações ou dificuldades. Uma campainha que não escuta, a chave que vive perdendo, um livro que não consegue ler por causa do tamanho da letra. Por isso esta conversa sincera com você mesmo é tão importante. Com esta lista em mãos, vá ajustando item por item. Procure por soluções já existentes na internet, converse com amigos que passam pelo mesmo problema, entre em grupos de discussão. Não consegue pagar um profissional para fazer um projeto de ajustes, pense na possibilidade de contratar uma consultoria. Uma conversa de algumas horas pode trazer a solução para sua vida!

Mas se você já tentou de tudo e realmente acha que não dá mais para morar sozinho ou sem ajuda, pense nas possibilidades que o mundo moderno oferece. Junte os amigos e vão morar junto! Se mude para o apartamento em cima do da sua filha! Contrate sistemas de monitoramento remoto!

Agora se realmente você vai morar com um parente, converse com ele. Leve sua identidade para o novo local, escolha as peças que te tragam mais memória e aquele sorriso no rosto. Explique para ele a sua rotina e entenda a rotina dele. A casa agora será de vocês e não mais de um ou de outro. Faça algo novo para você neste espaço. Comece a criar uma nova história sua neste novo local. Lembre-se, você está somente dando continuidade em sua história! E sempre, sempre mantenha sua identidade!

Flavia Ranieri é arquiteta com especialização em Gerontologia pelo Einstein.