Quando fiquei viúva com meu marido vivo

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Outro dia fiz uma palestra para um grupo de dez senhoras sobre reinventar a própria casa. Todas mulheres. Perguntei: nenhum homem? Não… eles acham que não são velhos. Foi o que escutei.

No intervalo eu fui conversar com a mais velha delas que tinha oitenta e quatro anos. Muito alegre, ela foi me contando sobre a própria casa e as mudanças que foram ocorrendo na sua vida ao longo dos anos. Falou do marido, já falecido, com muito carinho. Ele desenvolveu Alzheimer e ela cuidou dele até o final. Ela disse que tudo ia relativamente bem e transcorrendo conforme os médicos tinham avisado. A rotina diária era puxada mas ela não ligava.

Um dia, o médico declarou “A senhora está atrapalhando o sono dele. Vai ter que dormir em outro quarto”. E assim, do dia pra noite ela se viu saindo de seu refúgio e indo pra longe do seu amado. Naquela noite ao deitar, ela ficou viúva.

Fiquei tocada quando ela disse isso.

Mesmo com seus momentos de ausência e distúrbios de comportamento, ela sempre podia contar com aquele momento. Onde tudo se aquietava e ela ao lado dele escutava sua respiração e os dois dormiam como se não houvesse doença, como se não houvesse idade. O calor dele ao lado dela e a simples presença dele ao seu lado fazia toda a diferença e quebrava todo o peso que os cuidados do dia tinham tomado.

Mas agora isso tinha acabado. Ele estava vivo. Mas ela não sentia mais o seu calor, não escutava seu ronronar, ou suas balbuciações noturnas. Ela estava sozinha. E tudo mudou. A conexão foi se perdendo. Aos poucos o que ficou foi a doença e a pessoa se foi.

Compreendo a preocupação do médico, mas até que ponto os contras valem mais que os prós? Sempre falamos muito no nosso meio gerontológico sobre a importância de se ouvir o outro. De ver além. Acho que faltou ver o casal. Faltou ver o amor. Preocupado com o paciente, o médico esqueceu do cuidador. O cuidador faz parte do processo de cura, de alento, de zelo. O cuidador é parte do tratamento. E este remédio ele tirou.