A hora de sair de casa

Screen Shot 2018-04-03 at 18.17.44.png

Já dizia Martha Medeiros “Velho é o outro”. Não que ela pense isso. Pelo contrário. Defende que velhos somos todos nós. Mas em suas pesquisas ao longo de vários anos, isto foi algo percebido por ela. Muitos dos idosos não se enxergam idosos. Isto porque a palavra idoso e velho ainda carrega uma carga muito negativa associada à doença. Poucos associam esta fase como algo positivo. E não é só o próprio idoso que passa por esta negação. Muitas vezes os filhos também custam a entender que os pais precisam de cuidados. Não dão valor a fatos significativos e justificam pequenas falhas de memória ou quedas como coisas normais de “gente velha”.

Porque estou dizendo isto? Porque sempre fiquei na dúvida de até que ponto meus pais poderiam morar sozinhos sem auxílio. Ainda tenho muitas dúvidas, principalmente, por que eu mesma não quero reconhecer que meus pais que sempre foram independentes e fortes possam precisar de ajuda.

Na tentativa de responder esta pergunta fui conversar com eles. Meus pais. Meus avós, tanto do lado materno quanto paterno foram morar com os filhos em algum momento da vida e assim ficaram até o momento da partida.

Foi uma conversa longa de quase três horas, onde descobri muito sobre a minha história, a história deles e principalmente na forma como eles enxergam este momento da vida.

Os primeiros a sair de casa foram meus avós paternos. Meu avô era um homem alto, forte enquanto minha avó era baixinha e rechonchuda. Meu avô já tinha caído algumas vezes em casa, mas minha avó sempre conseguiu, com a ajuda dele, levantá-lo. Meu pai e minha tia moravam perto e auxiliavam quando era preciso. Até um dia em que ele caiu no banheiro no meio da noite e minha vó não conseguiu levantá-lo. No meio da madrugada meu pai foi ajudar. Já com sinais de Alzheimer, meu avô ficava agressivo às vezes, e não aceitava ajuda com facilidade.

Meus tios se reuniram e decidiram entre si, que era hora de tirá-los de casa. E foi assim, que minha avó deixou para trás toda a sua história e sua casa foi para casa dos filhos. O que era para ser temporário virou definitivo. Nunca perguntaram para ela o que ela queria. Os filhos fizeram o que acharam melhor e mais seguro para eles na época. Montaram uma estrutura de apoio que desse a eles o melhor no quesito segurança e conforto. Minha avó nunca reclamou e quando ela se foi, muitos anos depois do meu avô, ela estava rodeada de toda a família e suas últimas palavras expressaram sua alegria e felicidade pela vida vivida.

Meu avô materno morreu em casa, após uma longa luta contra um câncer. Vivíamos em um prédio onde todos os filhos tinham um apartamento; ou seja, todos no mesmo lugar. Sua partida foi uma das coisas mais tranquilas que presenciei na vida. Minha avó era muito ligada à ele e tínhamos receio que sua saúde declinasse rapidamente após sua partida. Mas forte como ela era, ainda viveu mais quinze anos, chegando aos 100 anos de idade.

Minha mãe tinha acompanhado o processo de envelhecimento dos meus avós paternos e mais preparada para esta etapa pensou em uma forma diferente de lidar com a situação quando ela chegasse. Quando minha avó, caiu ao tropeçar em si mesma em casa e passou três meses em uma UTI, achamos que talvez ela não conseguisse superar os traumas. Mas novamente nos surpreendeu e saiu do hospital lúcida e bem disposta com a vida!

Meus pais não moravam mais no mesmo prédio e haviam preparado um espaço para ela na nova casa com todo o cuidado e atenção que podiam. Antes disto minha avó voltou para própria casa e foi em conversas com ela que a decisão de sair de lá foi tomada com o consentimento dela. Ela mesma escolheu o que iria com ela e o que iria ficar. Participou do processo da mudança ativamente e na nova casa manteve a rotina de leitura, aula de pintura e visita de amigos.

Atualmente meus pais moram sozinhos em Belo Horizonte. Meus irmãos moram nos Estados Unidos e eu em São Paulo. A preocupação com a saúde deles sempre fica em nossa mente. Depois de muitos anos conversando com eles, finalmente conseguimos convencê-los a sair de uma casa superdimensionada para o estilo de vida deles e com uma escada onde ambos já haviam caído, para um apartamento com mais segurança.

Para onde ir foi outra discussão longa, onde eu pesava a qualidade de vida que teriam, reforçando a importância de estar localizado em uma área onde poderiam fazer coisas a pé, perto da família e onde eles sentissem uma identificação com sua história.

Questões como vista, natureza, luz do sol, tamanho dos espaços, posição dos banheiros e área para armazenar suas coisas e colocar seus móveis também foram levadas em consideração. Depois de dois anos encontraram o local ideal e se mudaram. O processo da mudança em si foi outro trabalho. Deixar para trás o que não importa, doar o que seria melhor utilizado para os outros e jogar fora o que não precisa foi doloroso, mas libertador, de acordo com minha mãe. Mas esta história eu conto depois.

Screen Shot 2018-04-03 at 18.18.49.png

Hoje eles ainda moram sozinhos e felizes no novo local. E a pergunta ainda fica na minha cabeça. Até quando? E o que fazer quando chegar a hora?

Acho que a luz para o que deve ser feito deve vir de uma nova conversa com eles. O que eles esperam? O que querem? O que não abrem mão de jeito nenhum?

Mãe e pai, se preparem para minha próxima visita à Belo Horizonte! Vai ter conversa de horas! E pai, nada de fugir! Ele adora fugir dessas conversas… rsrsrsrsrs