Idosos não são crianças

 Photo by Aris Sfakianakis

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É muito comum a infantilização dos idosos. É velhinho pra cá, vovozinha pra lá. Quando estamos em um contexto de intimidade onde há campo para isto não vejo problema; mas me incomoda quando vejo um idoso sendo tratado como criança. Como se ele não pudesse entender o que está sendo dito pra ele. Pior ainda é quando vejo um anúncio de “Creche para idosos”. Aí meu coração como gerontologista se quebra.

Eu estava no supermercado outro dia e vi a moça do caixa soltar a seguinte pérola: Vovó, você quer ajuda pra embalar as compras? A intenção foi das melhores, não me entendam mal. Com certeza a moça quis ser simpática e ajudar. Mas me surpreendi mesmo foi com a resposta da senhora que disparou: Não tenho netos para ser chamada de avó e se tivesse não teria sua idade.

Tirando a falta de jeito de ambas as partes, entendi a situação. Nós presumimos que se tem cabeça branca é velho é naturalmente avó ou avô. Já montamos um cenário de família tradicional que não é a realidade de muitas pessoas.

Precisamos lembrar que este ser humano que está em nossa frente, tem uma história, tem experiência, tem vivências! Tem uma bagagem riquíssima! E não sabemos absolutamente nada sobre sua vida. Ou seja, não devemos presumir absolutamente nada!

Desde então tenho pensado neste assunto. Me peguei outro dia chamando a atenção do meu pai porque ele não tinha marcado um otorrino. Isso porque acho que ele está perdendo a audição e ele teima que não. E assim, aos poucos vemos os papéis se inverterem.

Meu pai é médico, clinica até hoje e leva uma vida totalmente ativa. Mais do que ninguém ele sabe sobre a importância de se consultar com um profissional e sobre as vantagens de se resolver precocemente qualquer problema. Ele trata de pacientes todos os dias e alerta sobre os cuidados com a saúde, os encaminha para outros profissionais e puxa a orelha deles quando não seguem o que deve ser feito. Porque eu, deveria ficar no pé dele? Porque eu deveria tratá-lo como se ele não estivesse indo ao médico por pirraça? Ele é adulto e sabe o que faz, certo?

Médio. A gente se preocupa. E por mais que eu saiba que ele é perfeitamente capaz de procurar um médico e procurar ajuda, fico receosa. Qual o limite entre tomar as rédeas das decisões por eles ou deixar que eles sofram as consequências dos próprios atos?

Escuto muitos casos de famílias que tiram os carros dos idosos, porque acham que eles não podem mais dirigir ou que tomam outras decisões sem o consentimento deles.

Outro dia fui visitar uma senhora de 93 anos. Ela mora sozinha no mesmo prédio que o neto. E foi ele quem me chamou. Estava preocupado e queria fazer adaptações na casa dela. Ela foi super gentil e me recebeu super bem mas na primeira oportunidade me falou: Você é muito simpática mas não sei o que está fazendo aqui. Minha casa está ótima e não preciso de nada.

Enquanto andávamos pela casa, ela tropeçou três vezes. Não escutou a cuidadora chamando por ela e teve dificuldades em me entender algumas vezes. A casa era fofa mas precisava realmente de alguns ajustes.

O que fazer? Tomar a frente e ignorar a opinião dele? Se é em prol da segurança justifica? Não tenho uma resposta pronta. Me policio sempre para tratar os idosos com muito respeito pela sua história e pela sua autonomia. Os trato como os adultos que são. Mas me pego às vezes com vontade de falar: Vai fazer e pronto! É o melhor pra você! Mas sei que não posso. Preciso escutar seu ponto de vista e tentar encontrar um meio termo.

Mas como é difícil às vezes!

Quando fiquei viúva com meu marido vivo

 Photo by  Cristian Newman  on  Unsplash

Outro dia fiz uma palestra para um grupo de dez senhoras sobre reinventar a própria casa. Todas mulheres. Perguntei: nenhum homem? Não… eles acham que não são velhos. Foi o que escutei.

No intervalo eu fui conversar com a mais velha delas que tinha oitenta e quatro anos. Muito alegre, ela foi me contando sobre a própria casa e as mudanças que foram ocorrendo na sua vida ao longo dos anos. Falou do marido, já falecido, com muito carinho. Ele desenvolveu Alzheimer e ela cuidou dele até o final. Ela disse que tudo ia relativamente bem e transcorrendo conforme os médicos tinham avisado. A rotina diária era puxada mas ela não ligava.

Um dia, o médico declarou “A senhora está atrapalhando o sono dele. Vai ter que dormir em outro quarto”. E assim, do dia pra noite ela se viu saindo de seu refúgio e indo pra longe do seu amado. Naquela noite ao deitar, ela ficou viúva.

Fiquei tocada quando ela disse isso.

Mesmo com seus momentos de ausência e distúrbios de comportamento, ela sempre podia contar com aquele momento. Onde tudo se aquietava e ela ao lado dele escutava sua respiração e os dois dormiam como se não houvesse doença, como se não houvesse idade. O calor dele ao lado dela e a simples presença dele ao seu lado fazia toda a diferença e quebrava todo o peso que os cuidados do dia tinham tomado.

Mas agora isso tinha acabado. Ele estava vivo. Mas ela não sentia mais o seu calor, não escutava seu ronronar, ou suas balbuciações noturnas. Ela estava sozinha. E tudo mudou. A conexão foi se perdendo. Aos poucos o que ficou foi a doença e a pessoa se foi.

Compreendo a preocupação do médico, mas até que ponto os contras valem mais que os prós? Sempre falamos muito no nosso meio gerontológico sobre a importância de se ouvir o outro. De ver além. Acho que faltou ver o casal. Faltou ver o amor. Preocupado com o paciente, o médico esqueceu do cuidador. O cuidador faz parte do processo de cura, de alento, de zelo. O cuidador é parte do tratamento. E este remédio ele tirou.

A hora de sair de casa

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Já dizia Martha Medeiros “Velho é o outro”. Não que ela pense isso. Pelo contrário. Defende que velhos somos todos nós. Mas em suas pesquisas ao longo de vários anos, isto foi algo percebido por ela. Muitos dos idosos não se enxergam idosos. Isto porque a palavra idoso e velho ainda carrega uma carga muito negativa associada à doença. Poucos associam esta fase como algo positivo. E não é só o próprio idoso que passa por esta negação. Muitas vezes os filhos também custam a entender que os pais precisam de cuidados. Não dão valor a fatos significativos e justificam pequenas falhas de memória ou quedas como coisas normais de “gente velha”.

Porque estou dizendo isto? Porque sempre fiquei na dúvida de até que ponto meus pais poderiam morar sozinhos sem auxílio. Ainda tenho muitas dúvidas, principalmente, por que eu mesma não quero reconhecer que meus pais que sempre foram independentes e fortes possam precisar de ajuda.

Na tentativa de responder esta pergunta fui conversar com eles. Meus pais. Meus avós, tanto do lado materno quanto paterno foram morar com os filhos em algum momento da vida e assim ficaram até o momento da partida.

Foi uma conversa longa de quase três horas, onde descobri muito sobre a minha história, a história deles e principalmente na forma como eles enxergam este momento da vida.

Os primeiros a sair de casa foram meus avós paternos. Meu avô era um homem alto, forte enquanto minha avó era baixinha e rechonchuda. Meu avô já tinha caído algumas vezes em casa, mas minha avó sempre conseguiu, com a ajuda dele, levantá-lo. Meu pai e minha tia moravam perto e auxiliavam quando era preciso. Até um dia em que ele caiu no banheiro no meio da noite e minha vó não conseguiu levantá-lo. No meio da madrugada meu pai foi ajudar. Já com sinais de Alzheimer, meu avô ficava agressivo às vezes, e não aceitava ajuda com facilidade.

Meus tios se reuniram e decidiram entre si, que era hora de tirá-los de casa. E foi assim, que minha avó deixou para trás toda a sua história e sua casa foi para casa dos filhos. O que era para ser temporário virou definitivo. Nunca perguntaram para ela o que ela queria. Os filhos fizeram o que acharam melhor e mais seguro para eles na época. Montaram uma estrutura de apoio que desse a eles o melhor no quesito segurança e conforto. Minha avó nunca reclamou e quando ela se foi, muitos anos depois do meu avô, ela estava rodeada de toda a família e suas últimas palavras expressaram sua alegria e felicidade pela vida vivida.

Meu avô materno morreu em casa, após uma longa luta contra um câncer. Vivíamos em um prédio onde todos os filhos tinham um apartamento; ou seja, todos no mesmo lugar. Sua partida foi uma das coisas mais tranquilas que presenciei na vida. Minha avó era muito ligada à ele e tínhamos receio que sua saúde declinasse rapidamente após sua partida. Mas forte como ela era, ainda viveu mais quinze anos, chegando aos 100 anos de idade.

Minha mãe tinha acompanhado o processo de envelhecimento dos meus avós paternos e mais preparada para esta etapa pensou em uma forma diferente de lidar com a situação quando ela chegasse. Quando minha avó, caiu ao tropeçar em si mesma em casa e passou três meses em uma UTI, achamos que talvez ela não conseguisse superar os traumas. Mas novamente nos surpreendeu e saiu do hospital lúcida e bem disposta com a vida!

Meus pais não moravam mais no mesmo prédio e haviam preparado um espaço para ela na nova casa com todo o cuidado e atenção que podiam. Antes disto minha avó voltou para própria casa e foi em conversas com ela que a decisão de sair de lá foi tomada com o consentimento dela. Ela mesma escolheu o que iria com ela e o que iria ficar. Participou do processo da mudança ativamente e na nova casa manteve a rotina de leitura, aula de pintura e visita de amigos.

Atualmente meus pais moram sozinhos em Belo Horizonte. Meus irmãos moram nos Estados Unidos e eu em São Paulo. A preocupação com a saúde deles sempre fica em nossa mente. Depois de muitos anos conversando com eles, finalmente conseguimos convencê-los a sair de uma casa superdimensionada para o estilo de vida deles e com uma escada onde ambos já haviam caído, para um apartamento com mais segurança.

Para onde ir foi outra discussão longa, onde eu pesava a qualidade de vida que teriam, reforçando a importância de estar localizado em uma área onde poderiam fazer coisas a pé, perto da família e onde eles sentissem uma identificação com sua história.

Questões como vista, natureza, luz do sol, tamanho dos espaços, posição dos banheiros e área para armazenar suas coisas e colocar seus móveis também foram levadas em consideração. Depois de dois anos encontraram o local ideal e se mudaram. O processo da mudança em si foi outro trabalho. Deixar para trás o que não importa, doar o que seria melhor utilizado para os outros e jogar fora o que não precisa foi doloroso, mas libertador, de acordo com minha mãe. Mas esta história eu conto depois.

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Hoje eles ainda moram sozinhos e felizes no novo local. E a pergunta ainda fica na minha cabeça. Até quando? E o que fazer quando chegar a hora?

Acho que a luz para o que deve ser feito deve vir de uma nova conversa com eles. O que eles esperam? O que querem? O que não abrem mão de jeito nenhum?

Mãe e pai, se preparem para minha próxima visita à Belo Horizonte! Vai ter conversa de horas! E pai, nada de fugir! Ele adora fugir dessas conversas… rsrsrsrsrs 

A diversidade humana

 Imagem: Fictionforlife.tumblr

Imagem: Fictionforlife.tumblr

Como arquiteta me baseio muito na legislação vigente e em estudos de relevância em nossa área. A norma da ABNT 9050/15 que trata da acessibilidade, por exemplo, é uma que mora na minha mesa. Sempre a consulto e uso como referência para projetar espaços que sejam adequados a todos. No entanto, quando comecei a estudar sobre quais seriam as medidas ideais para os móveis utilizados pelos idosos algo começou a mudar.

Nada mais rico que ver pessoalmente os problemas que cada pessoa enfrenta. Com este intuito comecei a ir às sessões de fisioterapia particulares que minha colega Flavia Dumangin realizava. Em uma destas visitas conheci a Sra. Paula*. Uma senhora de 91 anos muito simpática, que tem um dos cachorros mais fofos que já conheci!

Acontece que a Sra. Paula tem 1,33m de altura. Em consequência disto para que sua poltrona ficasse adequada à sua postura, os pés tiveram que ser serrados. Se você tivesse simplesmente utilizado a norma, teria adotado uma poltrona com um assento com uma altura entre 40 e 45cm. A da Sra. Paula ficou com 35cm. Errado? Não! Perfeito. Pra ela!

Em outra ocasião fui acompanhar uma adaptação que precisava ser feita em um assento de um carro. Quando sentamos no banco da frente nossa perna faz um ângulo menor que 90º em relação ao piso. Nunca reparou? Nem eu tinha reparado até este momento! O que acontece é que a Sra. Beatriz*, de 81 anos, estava se recuperando de uma cirurgia, e não poderia ter seus joelhos em uma altura maior que seu quadril! Um carro que tenha regulagem de altura do assento resolveria isto fácil. Não era o caso, mas uma almofada ajustou esta questão rapidamente.

No estágio que fiz no residencial do Albert Einstein, procurei a terapeuta ocupacional em busca de uma resposta definitiva. Com uma pergunta certeira disparei: qual a altura ideal da cama? Escutei o que não queria: Não tem. Frente ao meu desaponto a terapeuta me esclareceu que em algumas situações em que a pessoa não pode ou não deve sair da cama, o ideal é que a altura fique mais baixa, dificultando o trabalho do corpo de se erguer. De acordo com ela, na maioria dos casos, este desestímulo já é suficiente para manter o idoso na cama. Se a intenção é estimular e facilitar que a pessoa se levante sozinha da cama, o ideal é que sua altura forme o tal ângulo de 90º entre a coxa e a panturrilha. Lembram do caso da Sra. Paula*? Pra ela o ideal de altura de cama seria 35cm. Para a Sra. Beatriz*, seria 45cm.

Vivenciei isto claramente na casa do Sr. José* e da Sra. Fabiana*, um casal de alemães super altos, na casa dos 70 anos. Mesmo com as pernas longas, eles precisaram cortar os pés da cama, para facilitar o ato de levantar pela manhã.

Qual o problema da altura da cadeira, sofá ou da cama não serem adequados? Simplesmente um esforço maior para levantar? Muito mais do que isto. Com o processo de envelhecimento nosso organismo muda. Além de ocorrer a atrofia muscular, também acontece o que chamamos de hipotensão postural; que é a queda da pressão ao mudar de posição. Pode ser da posição horizontal, deitada; para a vertical, sentada (acontece muito quando levantamos da cama); ou mesmo da posição sentada para a posição em pé (quando levantamos da cama ou do sofá). Esta queda de pressão pode causar tontura e consequentemente uma queda. Isto pode acontecer com qualquer um. Quem nunca foi pegar algo no chão, se levantou rápido e ficou tonto? A questão é que se isto ocorre com alguém mais jovem, rapidamente ele recupera o equilíbrio, o idoso não.

O que eu estou tentando dizer é que não existe fórmula mágica. As normas são incríveis e nos auxiliam em muito no desenvolvimento de soluções. Porém elas atenderão a 80% de uma população. E os outros 20%? Cada ser humano tem uma altura, uma peculiaridade. E viva a diferença! O segredo é você saber qual é a sua! Assim, na hora de comprar uma cadeira, você pode escolher a que seja mais adequada para VOCÊ e para o uso que vai fazer dela!

Veja alguns exemplos de cadeira de jantar:

 REF: LOJA SACCARO

REF: LOJA SACCARO

Agradecimentos: Fisioterapeuta Flavia Dumangin, que está junto comigo nesta luta em oferecer a melhor qualidade de vida para os idosos! Aos pacientes da Dra. Flavia que me receberam com um enorme carinho! Ao Residencial Albert Einstein que me propiciou um estágio onde aprendi mais que em um ano de estudo!

*Os nomes foram alterados para preservar a privacidade dos pacientes.

A casa que envelhece com você

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As pesquisas apontam que a maioria dos idosos não se mudaria da própria casa se pudesse escolher. E não é para menos. A nossa casa carrega muitos símbolos, muita história. É nela que estão nossas memórias. Sabemos o porquê de cada peça que está lá. Onde cada item foi adquirido, ganho por quem, em que época ou situação da vida. É nela que vivemos momentos de alegria com a família e com os amigos. É ela que nos recebe nos momentos que precisamos de acolhimento. Nossa identidade, quem somos, está extremamente ligada ao espaço em que escolhemos viver.

Mas porque então quando ficamos mais velhos precisamos abandonar tudo isto e nos mudar? Às vezes as circunstâncias da vida nos obrigam. Algo acontece. Sempre algo acontece. Uma queda, um esquecimento, uma insegurança. Às vezes justificada, mas muitas vezes nem tanto. Saber pesar esta diferença é o grande desafio não só para os filhos mas para os próprios idosos.

Para os que querem permanecer em casa pelo máximo de tempo possível a primeira coisa a se fazer é pensar em prevenção. Entenda que o seu espaço precisa envelhecer junto com você. E quando digo isto penso da forma mais positiva possível. Ou seja, o seu espaço precisa se adaptar ao envelhecimento assim como você precisa se ajustar a esta nova etapa que chega sorrateiramente. E ninguém melhor do que você mesmo para identificar suas necessidades e fazer as alterações de uma forma que esta adaptação seja apenas uma continuação de sua história. Continue escolhendo cada peça, cada móvel, de forma que sua identidade se mantenha preservada.

Vocês já devem ter escutado muito para tirarem o tapete, a mesa de centro, os enfeites em cima da mesa. Mas e se o tapete foi comprado naquela viagem especial, ou os enfeites sejam presentes de pessoas queridas, que te trazem um sorriso todas as vezes que olham para eles? Ou simplesmente não querem tirar a mesa de centro porque a sala vai ficar horrível sem ela?

Foi pensando nisso que decidi estudar gerontologia. Como arquiteta não me conformava com as soluções existentes no mercado. Um arquiteto especialista consegue perceber os riscos só de olhar o ambiente e analisar a rotina do idoso. Adaptar o espaço não significa jogar fora, tirar da frente, trocar tudo. Significa ajustar, mudar de lugar, trocar funções e se inevitavelmente tiver que comprar algo novo, que seja algo que tenha a sua identidade e não a do hospital ou da loja de itens para idosos.

Se você não tem um profissional que possa te ajudar nessa transição, tenha uma conversa sincera com você mesmo. Lembre-se, quanto mais sincera esta conversa for, maior a sua chance de permanecer em sua própria casa por mais tempo. Escreva sua rotina diária. Analise quais atividades você já não faz ou faz de forma diferente em função de alguma limitação. Trabalhe as questões pontualmente, de acordo com o surgimento destas limitações. Não transforme sua casa de uma vez só. Ela precisa se mudar junto com você, se lembra? O sofá ficou desconfortável porque a espuma do assento está muito mole? Antes de sair trocando aquele sofá que você demorou anos para conseguir comprar e é o seu xodó, experimente trocar a densidade da espuma do assento. Está com dificuldade para levantar do vaso sanitário? Troque a altura do assento do vaso por um mais alto. Continua com dificuldade? Instale barras de apoio. A fôrma para fazer o bolo está em uma prateleira muito alta? Nem pense em subir no banquinho! Que tal fazer uma revolução na cozinha e trocar as coisas de lugar? Uma simples arrumação e reorganização faz milagres!

Cada um vai ter sua própria lista de limitações ou dificuldades. Uma campainha que não escuta, a chave que vive perdendo, um livro que não consegue ler por causa do tamanho da letra. Por isso esta conversa sincera com você mesmo é tão importante. Com esta lista em mãos, vá ajustando item por item. Procure por soluções já existentes na internet, converse com amigos que passam pelo mesmo problema, entre em grupos de discussão. Não consegue pagar um profissional para fazer um projeto de ajustes, pense na possibilidade de contratar uma consultoria. Uma conversa de algumas horas pode trazer a solução para sua vida!

Mas se você já tentou de tudo e realmente acha que não dá mais para morar sozinho ou sem ajuda, pense nas possibilidades que o mundo moderno oferece. Junte os amigos e vão morar junto! Se mude para o apartamento em cima do da sua filha! Contrate sistemas de monitoramento remoto!

Agora se realmente você vai morar com um parente, converse com ele. Leve sua identidade para o novo local, escolha as peças que te tragam mais memória e aquele sorriso no rosto. Explique para ele a sua rotina e entenda a rotina dele. A casa agora será de vocês e não mais de um ou de outro. Faça algo novo para você neste espaço. Comece a criar uma nova história sua neste novo local. Lembre-se, você está somente dando continuidade em sua história! E sempre, sempre mantenha sua identidade!

Flavia Ranieri é arquiteta com especialização em Gerontologia pelo Einstein.